Esta semana vamos conhecer o trabalho do Eduardo Canha, e aprender uma dica valiosíssima: sem criatividade, improviso e dedicação não tem cosplay! Vejam as fotos da postagem e confiram quantos personagens bacanas ele já representou. Com vocês, Eduardo Canha.

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O ano era 1988, e foi num cinema de bairro que eu conheci a saga Star Wars…

Não sei a reação de vocês, mas quando eu vi aquele espaço e a nave Tantive IV passando já achei o máximo, e em seguida quando o star destroier passou pela tela, eu soltei um PQP que fez com que todos os lanterninhas na sala viessem procurar o autor do barulho. Star Wars, a partir de então, começou a fazer parte da minha vida. Uma pena é que produtos relacionados com a saga só foram encontrados décadas depois, e se você achasse algo importado, custavam uma verdadeira fortuna.

Daí a necessidade de improviso.

Peguei o maior número de referências (que eram poucas!!!), e parti para um hobby bem diferente. Na época, a nave Millenium Falcon era um sonho de consumo praticamente impossível de se realizar. Tentei comprar uma, alguns colecionadores até mostraram interesse mas voltaram atrás na última hora, portanto acabei pegando referências e fazendo como os mestres da Industrial Light & Magic faziam. A partir do zero, com a cara e a coragem, e improvisando. O resultado foi um modelo em escala desconhecida, mas tendo como referência um copo de café para fazer a tela do cockpit de Han e Chewie. Foram horas de descontração em um hobby sadio, e digo mais: muito mais condizente com a realidade financeira brasileira.

Por alguns anos, em fins de semana após a jornada de trabalho, esse era meu passatempo solitário, até que conheci o fanzine Hiperespaço, da cidade de Sto. André. A publicação relembrava os filmes da saga e inovava trazendo encartada à edição um modelo em papercraft para montar. Com muito gosto curti as edições e logo tive a foto da minha Falcon publicada. No desenrolar dos anos, posso dizer que a existência do fanzine foi um ponto importante para Star Wars no Brasil. Em um evento na Gibiteca Henfil conheci o jovem escritor Fabio Barreto, com entusiasmo suficiente para carregar nas mãos o fanzine Intrepid, de sua própria autoria. Ele veio até mim perguntando o que achava e vi ali um potencial de proporcionar que muitos fãs matassem saudades de Star Wars e outros se aproximassem.

O fanzine prosperou a ponto de reunir mais e mais entusiasmados incluindo este que vos escreve, e logo já havia um evento para reunir essa turma. Graças a isso comecei a participar de eventos frequentemente a ponto de, numa brincadeira entre amigos, fazer algo muito parecido com uma maratona. Ao saber por telefone do evento disse que ia caracterizado do personagem Boba Fett. Do outro lado da linha ouvi um “ok” morno, e quando desliguei o telefone percebi que fora os dias que tinha que trabalhar, não teria nenhum final de semana para me preparar, e que só dispunha de três dias corridos. Não me lembro muito bem do que aconteceu a não ser de flashes e borrões. A velocidade de hiperespaço rumo a lojas, roupas de casa, e o mais cativante improviso.

Semanas antes eu tinha conseguido uma máscara dessas de carnaval do personagem, um tanto surrada, que precisava de reparos que imediatamente me coloquei a fazer. Munido de placas de plástico e supercola, procurei materiais que poderiam se adequar à roupa do personagem, encarei aquilo na brincadeira e levei adiante o plano que resultou numa salva de palmas e gritos dos presentes no local, dignos de um astro do rock.

Até hoje, muito tempo depois, quando me perguntam porque eu não tirava o elmo, (já atualizado e pintado de acordo graças ao grande mestre modelista Carlos Henrique dos Santos), digo: o fã vem para ver e tirar foto com o personagem e não com quem está vestindo o traje. Esse tabu eu só quebrei quando o ator que interpreta o personagem, Jeremy Bulloch, veio à Jedicon e tiramos uma foto juntos. Logo após isso, fui convidado a participar da primeira Hobbitcon, à qual fui de Black Rider (Nazgûl). Lá conheci meu amigo Roberto Moriama e mais pessoas interessadas em cosplayers, o que me levou a participar de vários outros eventos.

Me perguntam muito como é fazer um cosplay. Respondo sempre que após a escolha do personagem, referências visuais ajudam muito. O passo a passo é outro ponto fundamental, para que não se perca nenhum detalhe. Se você tem uma ideia, desenvolva, porque é muito legal falar e falar do que vai fazer com esse ou outro material, mas o risco de ficar só na ideia e não colocar a mão na massa é grande, porque dá trabalho.

Planejar é legal, mas levar adiante com entusiasmo é uma lição não só para o traje mas para a vida toda. Se você está disposto a fazer, tenha uma atitude e siga em frente. Existem inúmeros materiais para utilização. O mais inovador que se tem visto no mercado é o EVA (espuma vinílica acetinada, que pode ser recortado e colado com tesoura. Os Homens de Ferro que a gente tem visto muito em eventos, que o digam. Na internet há muitos tutoriais que ajudam e dão várias dicas a respeito.

Nunca desanime no primeiro cosplay. O que importa é a experiência que ele lhe proporciona, e a vontade de fazer algo melhor da próxima vez. Isso se aplica também a plastimodelismo, esportes e tudo o mais da vida. E não se aborreça com críticas, pois elas geralmente não levam a nada e normalmente estão é mascarando frustrações dos próprios críticos. Nem se preocupe com comparações. Num evento especializado você vai curtir melhor seu cosplay. Como tudo na vida, o cosplay tem que ser levado numa boa, como um entretenimento sadio e coerente, e ser curtido num ambiente agradável onde as pessoas se respeitam e estão dispostas a compartilhar alegria e o amor pelos personagens que representam.

ABOUT THE AUTHOR

Curador cultural especializado no segmento nerd. Coordenou o projeto Geek.Etc.Br na Livraria Cultura entre 2012 e 2016, e atualmente é consultor na V&F Consultoria e Eventos. É editor do site Hipertextos, e estreou como roteirista de quadrinhos no final de 2016, no projeto Pátria Armada - Visões de Guerra. Presidiu o Conselho Jedi São Paulo, em curtíssima temporada, em 2001, e hoje faz a gestão de conteúdo do grupo.